CONTEMPORANEIDADE

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POESIA CONTEMPORÂNEA


Sylvia Beirute*



Com destreza, Sylvia emprega movimentos a sua poesia dando ares cinematográficos. Contundente ela desvela frações e sem ser explícita é reveladora…Eis aqui o melhor da poesia contemporânea, orbitando entre Florbela Espanca, Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa.

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POEMA DE BENEFICÊNCIA

introduza um colapso numa dúvida. recolha-a por elementos. coloque perguntas ao redor. as respostas situam-se entre tempos verbais. um detalhe apaga-se para dar lugar a outro. a memória como um todo. qualquer força para medir é uma inexpressão na arte. não há um só caminho aberto em direcção a um caminho aberto. imperdibilidade é um modo feio de beleza. as coisas mais belas são decíduas porque não assíduas. como aquele fragmento de biografia sem palavras que procura corporalidade no texto. o seu instinto difásico é como um diálogo em que as duas linguagens se friccionam e encontram como que numa orla central em que tudo o resto se autopune até à morte, ficando um quadro de órgãos estrelados. quem entrou aqui introduziu um colapso numa dúvida, recordo. quem tem dúvidas não morre verdadeiramente. recolher elementos de dúvida é uma ocupação como qualquer outra. os ocupados não morrem. a estética escultural do olfacto é mais importante do que as auto-estradas. por isso, vá a pé na imaginação férrea do silêncio. cheire a paisagem que se absorve lentamente ao fundo e que rasga com ternura a ternura do céu de outono. não ande demasiado. quanto mais andar mais esperança surge. surgir esperança é surgir um espelho, e um espelho é difuso apenas na interioridade. intimidade. é como o poema. o poema que mudou. que se deslocou até aqui porque fez uso das possibilidades, probabilidades, matemáticas e deslumbres que a arte oferece. ontem, quando o visitei, o poema era literatura. hoje é mistificação das bases. e ter um pensamento único, convenhamos, é a fruição da vanguarda. a vanguarda converte porque gera metades de tudo o resto. e tudo o que é metade se perde.


INTIMIDADE

não se trata de uma sede ser capaz de fazer evaporar

um oceano

ou de uma mentira poder ter absoluta razão, ou que

envaidece a abstracção na oxidação do cansaço estético.

e mesmo que não saibamos de que se trata,

sempre diremos que não consiste a fotografia deste momento

em inevitar a obliteração dos exemplos, de uma

consciência que extravia

colégios de identidade, palácios de consolação, relógios

casuais que dão forma aos pormenores do tempo.

encontramo-nos na orla do círculo, na superfície do branco

após o negro que o percorre e mutila como a

invenção que brota ou o poema que transnomina no ventre

e cujos versos mudam de lugar em caso de fogo

e natureza intacta.

sabemos apenas que o presente

é uma prótese do passado, e talvez isso chegue

para que devamos fechar os olhos, contornar os nossos

corpos sem uma só morte sobrevivente, e deixar que

o momento prossiga em completo vazio.


O DOM DA INOCÊNCIA

Alguém há-de procurar dons nas capitais da beleza,

aceitar a sombra para realizar o corpo,

o interior

para hemisferar a exultação na proporção da luz própria.

Alguém há-de atravessar-se na construção do sono

ainda em obras,

num céu vertical que procura

a extremidade do medo, as rugas na respiração, a

cabeça na linha do mundo.

mas ninguém há-de fazer como nós, ninguém o fará

certamente:

simulando todos os dons, aceitamos condenar-nos

à inocência.


BUENOS AIRES

não haverá vontades ou actos linguísticos,

nem contrários ou anti-contrários.

nenhum ilhado de nuvens brancas

sobrevoará a cidade hermética

do meu lunfardo.

tão-pouco haverá um orgulho cómico

ou uma atmosfera

em linha recta no mapeamento absoluto

dos meus olhos.

neste instante, nem piazzolla gerará

inflamações num «volte sempre»

e é seguro dizer que as decisões se medem

com distâncias ocupadas por vazios

que arrastam memórias livres.

hoje não haverá vontades ou actos linguísticos,

uma cor clara

comove uma cor escura até que esta se dissolva,

o amor deu a sua última volta, e a poesia planou

na literalidade móvel de um roteiro interior.

em breve, inextinguimos o tempo e o espaço

que nos extinguiu a nós.


O MUNDO

teríamos entrado noutro mundo

que não este engessado

da intensidade do impossível.

um sem lastro e que não começasse

em fevereiro no dia sete às dezanove

e dezasseis com uma refeição à espera, um

vinho sobre a mesa, e

a broa de avintes por cortar.

um sem antídotos pós-utópicos e hipotaxes,

um sem perguntas e frinchas, janelas

que voam com cabeças reveladas,

um descontextualizado até ao zero

e com sequências de arte intransigindo para trás,

um

em que para amar

não seja necessário

esperar que a paixão acabe.

*

ENSAIO SOBRE AS PALAVRAS NO CONTEXTO POÉTICO

{pensando em antónio ramos rosa}

a formalidade subtil da poesia

consiste

em aproximar todas as suas

palavras.

todas elas, independentemente

da sua colocação física, devem ser

equidistantes,

equi-importantes,

equi-ausentes.

__________________________________________________

Natural de Faro, Portugal. Sylvia Beirute estuda cinema e teatro e nasceu em 10 de Dezembro de 1984.

Escreve poesia e teatro para mudar o seu mundo e diz-se a favor do Acordo Ortográfico na versão de 1945. Integra o grupo literário “texto-al “ e é autora do blogue “uma casa em beirute” .

Tem colaborações dispersas em revistas literárias de Portugal, Espanha, Argentina e Brasil.

Sylvia colabora voluntariamente para a RC.


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  1. Simone, isso que é faro, sentido de alvo, saber que o que merece ser divulgado deve ser divulgado. E é o que estás fazendo. Meus parabéns. E, pela parte que me toca, interessado que sou, gratíssimo. Beijo grande.

  2. Poxa Simone! Tu és uma mulher que sabe o que fala pelo que percebi. Dá uma olhada lá no meu BLOG, no que escrevo, no que sinto. Creio que tua opinião será de grande valia pra mim, e podes ser sincera nas tuas opiniões, minha intenção é melhorar.

    Te aguardo.

    Bjs do aspirante a escritor.

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Carta ao Leitor

A inabilidade de ser igual e o desejo de personificar a existência é que enche as prateleiras e estantes de livros, filmes e CD’s.

Vida organizada, distribuída em capítulos e episódios: isto é Arte.

Desde que somos crianças adoramos ouvir histórias e contos de fadas. Crescemos e nos rendemos aos filmes e novelas, ir ao cinema e ao teatro. A ficção está por toda a parte e nos ajuda com a realidade da vida.

Inventar pode ser uma catarse, nos desplugando – por alguns instantes – de um mundo exigente e repleto de cobranças, nos fazendo migrar para um faz-de-conta, feito de formas, sinais e tramas que independem de tempo e espaço. Algo análogo, onde o prazer fala alto. É uma bela saída para recontruir-se e reinventar-se. Isto explica um médico ter uma banda de Rock, um dentista fazer trabalhos de marcenaria nas horas vagas, uma psicóloga compondo versos durante as noites, uma arquiteta costurando bonecas entre um e outro projeto. A fome pelo conhecimento e sensibilidade é ilimitada.

Nossa matéria de capa trás uma profissional da ficção: Fernanda Montenegro. Ela garante que resolve(u) no palco toda a sua fantasia. Em entrevista ao jornalista Armando Antenore Fernanda fala sobre Simone de Beauvoir e a grande influência de o “segundo sexo” em sua vida, de feminismo e do existencialismo. Conta sobre o pacto de fidelidade que fez (e cumpriu) com Fernando Torres, e responde certeira sobre o possível antagonismo de ser feminista e mãe.

Por sorte a ficção não é exclusividade dos artistas e literatas, é sim uma reserva acessível e democrática. O cobrador de ônibus, o eletricista, o pedreiro, o taxista…todos acreditam que suas vidas possam se tornar um livro, um filme, uma música. Afinal são protagosnistas de suas próprias histórias. O desejo de contar sinaliza a ânsia que qualquer um tem de ser incomum.

Neste mês de março, em que se celebra a mulher por todos os cantos, o “universo conspirou” e estamos rodeados de mulheres – notáveis – que aderiram a esta empreitada participativa da Contemporânea: Cris Persicano em seu ARTIGO DEFINIDO fala sobre a MULHER MODERNA que faz acontecer, Maria Emilia Genovesi é convidada do ARTIGO INDEFINIDO e – como que num grito – convida, MULHER: VAMOS EM FRENTE? Na recém criada página POESIA CONTEMPORÂNEA a participação da portuguesa Sylvia Beirute com poesias profundas e pensantes, solidifica o desejo da REVISTA CONTEPORÂNEA em estreitar laços e interagir com a CPLP.

Para arrematar toda essa história de mulheres e mais mulheres, o MUNDO CONTEMPORÂNEO é a análise desta edição terceira por MARCELO ULGUIM, nosso comentarista.

Feita – providencialmente – por mulheres, sugiro que essa edição – também – seja degustada por homens inteligentes que apreciem nossos feitos, nossas conquistas e nosso espaço.

Boa leitura,

Simone Costa
Editora

Inspirada pelo poeta Fabrício Carpinejar

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Aos 80 anos Fernanda Montenegro declara: “Toda a minha fantasia eu resolvi no palco”


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